filosofia de buteco

Para ser escritora

18:53

Recebi por e-mail hoje um dos textos do Alex (link ainda não disponível), o título é "É preciso ter angústia para criar arte?". Já faz tempo que eu tenho pensado exatamente nisso. Desde que li "O Zen e a arte da escrita", do Bradbury a coisa só intensificou na minha cabeça.

Eu costumo escrever para digerir meus pensamentos. Eu preciso colocá-los para fora, separá-los, analisá-los, antes de poder colocar para dentro novamente. Às vezes o nó é tão grande, que eu preciso fazer isso várias vezes (alguns de seus textos ajudaram a atar ainda esses nós - e eu só posso te agradecer por isso). Eu me sinto uma vaca: engulo o mundo, regurgito parte escrevendo, engulo novamente, coloco pra fora, e assim por diante. Um processo sem fim de entendimento que precisa ser externalizado para ser melhor observado.

Mas escrever ficção me assusta. Não que eu tenha alma de escritora, nem espero ser minimamente famosa por isso... mas tenho vontade de montar minhas narrativas. Só que quando a gente olha pro lado, parece que todo mundo que tem alguma obra expressiva sofria - como diz a sua colega, a tal da angústia. Pintores, escultores, músicos, escritores. Por um amor impossível, por um abandono, por absorver os problemas sociais da humanidade, crises existenciais. Se deus existe, se ela vai voltar, se as pessoas passam fome, se o corintians vai ganhar a taça do brasil. As pessoas SOFREM. Bebem, usam drogas, entram em depressão, e produzem sobre isso. Se matam. Matam os outros.

Veja bem, eu me esforço muito para ser uma pessoa controlada. Eu já tenho problemas sérios de ansiedade, não quero que isso tome conta da minha vida. Nunca fui uma sofredora amorosa extrema - não me consumo em paixão, não acho que vou morrer se ele for embora, não acho que vai ser para sempre, ou que é o único amor que tive nesse mundo, ou o único que importa. Busco o equilíbrio, não me esquivo dos prazeres, estou aprendendo a lidar com as dores.

Então se para escrever eu tiver que me deixar implodir - ou explodir - eu acho que isso não vai acontecer. Escrever com paixão não é o mesmo que estar sentindo a paixão. Escrever sobre a morte quer dizer que você tem que morrer? Obviamente que há nuances que um observador externo não consegue passar em caso de situações específicas (alguém que sobreviveu a Ruanda vai escrever isso com muito mais propriedade que eu; isso não quer dizer que será melhor escritora. O fato de sabermos da realidade do fato nos faz mais suscetíveis ao escritor?). Mas eu estou falando do geral, sabe?

Alex, ler seu texto colocou mais um peso nos pratos da minha balança, para ponderar. Obrigada.

filosofia de buteco

Tarô

12:25

Eu tive tarô por muitos anos.

Em 2002 eu ganhei de presente um Tarot de Marselha. Não sabia usar, apesar de na época estar estudando cristais, pedras, incensos e afins. Nunca me entendi com os arcanos menores.

Quando fiquei um pouco mais velha eu joguei um pouco melhor; mas tirando umas poucas vezes que joguei com tanta intensidade a ponto de me exaurir, eu não me sentia muito segura. Parei de jogar.

Eu tentei dar o baralho de presente algumas vezes, e ele sempre voltou para mim. Eu não faço ideia do porque, mas ele sempre parava nas minhas mãos de novo. Em 2009 eu consegui passá-lo para frente em definitivo, nas mãos da única pessoa que eu acho que ele gostou de ficar, o Glauber.

Os anos passaram. Eu saí do Centro. Eu não sei mais no que acredito - sei que não posso negar tudo o que eu passei, mas minha mente racional tem problemas em manter todas as peças juntas: minha crença na não-religião, no progresso científico; minhas experiências em Centro de Umbanda; meus sentimentos com energias. EU evito pensar racionalmente sobre isso.

[Pode ser que eu não goste de crença em algo maior porque a forma como essa crença é vendida é a religião - e eu tenho problemas graves com a religião. Pode ser um monte de coisas.]

Por anos, fiquei sem nada que me lembrasse remotamente qualquer crença em qualquer coisa. Não porque havia expulsado isso da minha vida, mas porque não senti necessidade. Não foi consciente.

Hoje eu casa eu tenho pedras. Eu nunca pude negar o impacto que um ambiente carregado tem sobre mim (eu choro, sempre chorei, rsrsrs). Eu não sei o que pode ser explicado pela física ou pelo esoterismo. Tenho lá meus quadros de Buda. Teoricamente o budismo não é uma religião, não é uma crença teísta... mas lidar com meditação, acalmar a mente e etc. acabam fazendo muitos incluírem o budismo nisso.

E agora, depois de quase 10 anos, eu tenho um Tarô de novo.

Não foi muito de caso pensado. Eu fui comprar uns livros e o clube de pontos da livraria estava me oferecendo algo de graça. A única coisa de interessante que tinha lá era ele, e eu já tinha pensado nisso algumas vezes nos últimos meses.

O Tarô, para mim, não é uma forma de prever o futuro, como algumas pessoas gostam de pensar ("vai na cartomante") - apesar de eu já ter visto uma situação bem tensa e real com um tarô respondendo isso, e com questões beeem específicas, nada evasivo (de novo, a gente não tem como negar oque passou, por mais que não acredite em certas coisas).

O Tarô é um espelho. Quando você joga o SEU tarô para VOCÊ, ele está simplesmente respondendo à sua energia. Não faço perguntas específicas; sempre aprendi que você tem que deixar o baralho dizer o que você precisa ouvir, não o que você acha que quer como resposta.

Hoje eu tirei uma carta, para a semana. Vieram duas na minha mão. Você não pode ignorar a segunda, se vieram duas é porque você precisava. E elas vieram como um tapa na cara.

Se eu acredito nos mecanismos por trás disso? Se não acho que é só autossugestão, que eu simplesmente vou interpretar o que veio como eu quiser? Pode ser que sirva exatamente para isso - um clique externo que te ajude a desembrulhar um pensamento que já estava embolado na cabeça. Pode ser. Mas serviu para seu intento, então eu continuo tentando manter minha mente científica separada do resto, só para não ficar maluca.

E vamos ver se vou mandá-lo embora novamente em breve. Não dá para saber,ainda. Por enquanto, ele fica aqui.

filosofia de buteco

Da morte.

10:10

Há uns dias eu vi a postagem do Centro Acadêmico de Biblio da UFRJ, sobre um aluno desaparecido. Eu dei aula para ele no primeiro período, minha única turma, e compartilhei na minha timeline.

Hoje quando entrei vi que encontraram. O corpo. No IML.

:/

O Bruno era novo. Eu não sei o que aconteceu, mas minha cabeça pensa nos piores cenários sempre. Eu não consigo perder a impressão que foi um crime de ódio. Bruno era um ótimo aluno, uma ótima pessoa. E era Negro, Pobre e Gay. 

Vai virar estatística da violência do RJ. O motivo de sua morte importa sim. Ele podia estar apenas em um lugar errado, na hora errada. Pode ter sido algum problema pessoal. Pode ter sido um assalto mal sucedido. Mas eu não acredito muito nessas hipóteses, meu espírito santo de orelha não está apontando isso. Num país em que "racismo não existe", "meritocracia taí, só é pobre quem quer" e "existe cura para homossexualidade", só consigo sentir a dor.

Não sei se fico preocupada com o mundo, grito "pára que eu quero descer", ou se só desisto.


trabalho

Por que não estou feliz com o trabalho?

12:02

OBS. pós publicação:
Eu reli o post, coisa que nunca faço, e percebi que passei a impressão de ser resmungona. Não que eu não seja, mas não é esse o caso, rsrs. Eu não estou reclamando sem tentar nada; não estou com os braços cruzados esperando cair uma solução do céu. Não estou unilateral e dona da verdade (eu realmente tento me colocar no lugar das outras pessoas, tento ver as coisas sob outros ângulos e outros pontos de vista). Eu estou tentando, e continuo tentando, de verdade. Mas o blog é para esvaziar a cabeça, e isso é o que está na minha cabeça agora. Capisce?

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"A pergunta do dia, valendo 1 milhão de dólares!"

Porque eu não sei mais o que fazer, não faço ideia.

Eu gosto de ser Bibliotecária. Acho que já comentei aqui diversas vezes, que uma das minhas maiores satisfações é ajudar alguém DE VERDADE. É saber que um usuário veio aqui procurando alguma informação que precisava para sua construção de conhecimento, e encontrou. Que eu mostrei uma ferramenta desconhecida, um meio de produzir mais/melhor, um uso novo, um novo truque.

Posso dizer que a falta de autonomia que estou sentindo, a falta de confiança no meu trabalho e a falta de diálogo real (diálogo, não declarações) estão acabando comigo.

Quando você é funcionário público, concursado e estatutário, é mais difícil só falar "vou procurar outro emprego e sair daqui". Não é impossível, obviamente; só não é tão simples quanto poderia/deveria. Você pesa muitas coisas, e no meu caso, nem é a estabilidade que me atrai, mas o valor do salário (por causa do adicional para Mestres).

Eu sei qual é meu trabalho. Eu me formei em Biblioteconomia, como todas as outras bibliotecárias. Eu vim para cá com a proposta de formação para o público, coisa que ninguém estava fazendo, e sobre a qual nenhum servidor estava debruçado. Eu comecei a fazer, os resultados apareceram... a chefia mudou, e eu sinto que não posso fazer mais nada. E se essa não é a intenção da minha chefe (e eu não tenho como saber qual é essa intenção), me desculpa, mas ela está passando a impressão errada.

Então eu sento na minha mesa e penso "o que eu posso fazer?". Poderia estar produzindo conteúdo para os cursos da sala de capacitação, que só consegui estabelecer a duras penas? Sim, poderia. Poderia estar planejando um calendário para os cursos? Procurando parcerias de coisas a fazer? Catando editais públicos que me dariam subsídios para modernizar algumas coisas aqui dentro? Sim, sim, e sim!

E porque então não estou fazendo nada disso, e sim estou aqui reclamando? Porque a minha chefia me podou de tal forma que eu não tenho força para querer nada disso. Porque ela não dá abertura para que eu fale, porque ela acha que as coisas tem que ser centralizadas nela. Porque ela não marca uma reunião com a equipe para saber o que podemos/fazemos.

Então, indo totalmente contra minha natureza, e o pior, os meus princípios, eu decidi que não vou fazer nada além do solicitado. Que não vou mover uma palha além do que for estritamente pedido aqui dentro. Não vou demonstrar proatividade, não vou oferecer meus préstimos de espontânea vontade.

Mas o que eu queria então? Anarquia? Cada um por si e deus por todos? Não responder a ninguém? Obviamente que não! Eu sei da necessidade de uma chefia centralizada para ajudar a azeitar as partes. Eu sei que cada setor costuma olhar para o próprio umbigo e priorizar suas problemáticas.

Eu não preciso de muito para ficar feliz com meu trabalho e minha profissão. Só pedi um pouquinho de liberdade para fazer o que eu já sei que precisa ser feito. Para inovar dentro dos limites do meu setor, para testar as novas fórmulas do acesso à informação, os novos modelos digitais. Tudo controlado, tudo embasado, tudo conversando com os pares (de forma literal ou através da literatura da área). Testando e vendo o que funciona para nosso caso, nosso tipo de biblioteca e de alunos. Testando as capacitações, as ferramentas, o marketing.

Eu não estou pedindo para fazer nada totalmente fora do planejamento - eu estou pedindo para me deixarem planejar e me responsabilizar pelo MEU setor. Eu não estou dizendo que vou tirar e inventar coisas do nada, eu estou lendo sobre isso na minha área, estudos de casos, literatura científica. Eu não estou pedindo para não fazer nada ou trabalhar menos, pelo contrário, eu estou arrumando MAIS trabalho. Eu não tento atrapalhar que trabalha, nem quero ser um peso morto.

Então POR QUE É TÃO DIFÍCIL? Por que não posso fazer o que me propus, o que a chefia anterior havia alinhado?

CANSEI.

O que eu posso fazer para mudar essa situação? Conversar com a chefia? Não não funcionou. Como meu marido definiu melhor do que eu (depois de eu explicar como as coisas tem sido aqui): ela está disponível para "ouvir", mas não para ponderar (ou seja, ela aceitar "ouvir" o que falamos, mas não conversa sobre o que foi dito, nem pondera o que colocamos... apenas continua justificando seu ponto de vista). Não é para tudo, mas para as coisas que importam tem sido assim.

Posso continuar fazendo as coisas que estava fazendo e ignorar disposições contrárias? Todo mundo sabe que não é bem assim que funciona, né? Além disso, uma das minhas raivas é ter brigado tanto por uma mudança de mentalidade institucional para com a Biblioteca, e ver isso indo por água abaixo.

Quem me conhece sabe que isso me deixa doente - literalmente. Gastrite, crises de ansiedade, enxaqueca. Eu somatizo muito. Minha profissão e meu trabalho não são coisas que consigo "desligar" quando saio da sala de referência, são coisas que vão comigo. Culpa minha? Talvez sim.

O que fazer então. Por enquanto, nada. Aguardemos cenas dos próximos capítulos.





minha vida

Trilhos

14:46

Esse último mês foi muito difícil. Muuuito difícil.

Foram 8 dias a mais de TPM - primeira vez que desregula desde que parei com a pílula, mas quem sou eu para falar? EU fui totalmente desregulada em maio! Comi o que não estou mais acostumada/coisas que não fazem muito bem; dormi em horários estranhos; fiquei com preguiça de cuidar de mim. Não meditei, não fiz yoga, não fiz exercícios.

Li bastante. Só Chick Lit. Com 200 livros muito bons me esperando na estante (só citando os físicos!), e eu lendo e relendo literatura água-com-açúcar-(e-sexo,-claro). Uns 10 livros, pelo menos. Os filmes bons que estavam na lista também não rolaram.

Teve crise foda de ansiedade (sim, eu e meus problemas graves com isso), o que me deixou ainda mais travada com tudo.

Teve viagem a trabalho (duas). Teve muito dinheiro gasto no crédito - coisa que come todo meu orçamento. Teve cachorro fazendo pirraça. Teve falta de gás no condomínio (tem ainda). Teve viagem de 3 semanas do marido.

Ou seja, teve tudo para me tirar do eixo. E, boba que sou, eu fui! Saí mesmo.

Marido voltou ontem. Menstruação veio com a Lua Cheia, dia 29. E eis que ouço a batida na porta: a sanidade voltando, beeem devagar e desconfiada. Agora é dar um jeito de amarrar ela dentro de casa para colocar as coisas nos trilhos de novo.

minha vida

Pensamentos de uma semana difícil para todo mundo

16:59

Sair do país: solução ou mais problema?

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Se todo mundo que pode fazer alguma coisa sair do país, o que será dos que tiverem menos condições e precisarem ficar? Se todo mundo que pode promover mudanças sair, como irão ocorrer mudanças?

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Estou cansada. Foram 5 vôos em 5 dias, todos à trabalho, todos no meio dessa crise de combustível, e no último eu nem sabia se ia conseguir voltar para casa.

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Meu marido está fora do país a quase 3 semanas, e voltará nessa. Será? Espero que consiga vir. Mas acho que é até egoísmo meu.. do jeito que as coisas estão, melhor seria ele ficar lá até alguma coisa se acertar.

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Condomínio avisa: o estoque de gás está no fim. Morar em Curitiba em junho e não ter como tomar banho quente: será castigo? Não ter como cozinhar: sobreviver como? Para quem é vegetariana e não encontrar mais comida fresca no supermercado, como fazer?

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Quero apoiar essa greve, acho as reivindicações justas (a maioria). Sei que a situação está difícil para todos, e se eles têm como chamar atenção, ótimo para a categoria. Mas como acreditar que a briga é legítima, se parece que em tudo está a motivação do capital dos donos de transportadoras, dos políticos de olho em coisas que não conseguimos ver? Até onde vai cada coisa (e não é porque não estou lendo sobre, mas exatamente porque estou lendo nas entrelinhas)?

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Eu realmente queria muito que uma greve de professores públicos tivesse esse impacto também...

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Estou tão estressada que minha menstruação não quer descer, apesar das cólicas. O que me deixa mais estressada. E faz ela demorar ainda mais para descer.

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Para mim, essa é apenas uma prévia das situações futuras. Possivelmente não "futuras" ano que vem, mas "futuras" daqui a 20 anos. O petróleo vai acabar, e ficaremos como? Se temos a fonte inesgotável de energia solar, pq depender tanto do combustível fóssil? Se poderíamos ter malha ferroviária funcionando? Se as casas podiam se equipar com painéis solares? É caro para construir? Sim, mas apenas pq toda a estrutura baseada em combustível já está pronta. Quando ela estava em construção também era cara. Mas empresário não quer longo prazo, lucro em 25 anos; querem ficar (ainda mais) ricos AGORA!

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E mesmo que fosse sair do país, para onde? Não tem lugar que não tenha ônus - apenas ônus diferentes. Em Portugal a economia é mais instável. No Canadá tem o frio, outras culturas. As bibliotecas fechando por todos os lugares na Inglaterra. O aquecimento global tornando o calor insuportável na Austrália. Os países da América Latina padecendo na mão de políticos totalmente insanos. E aí, correr pra onde?

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Penso em quem viu as crises - porque eu não vi. Os jovens estão tendo, em uma única semana, o gostinho de crises econômicas extensas, como a de 1986. O desespero já batendo em uma semana de greve, imagina quem conviveu com isso por muito mais tempo?

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Eu não tenho cuidado muito bem de mim nas últimas duas semanas, e o cansaço tá todo refletido aqui, Não tenho meditado, nem me exercitado, nem conseguido manter a cabeça em ordem. Não tenho bebido água direito. Comi coisas que meu corpo não ficou muito feliz em receber (tô há dias com o intestino desregulado). Fumei cigarros (coisa que não fazia com regularidade há tempos). O corpo está reclamando.

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Como ficar zen e minimamente feliz rodeada por tudo isso? Como medo da Teoria do Caos Social? Uma pessoa que já tem problemas sérios com Ansiedade lida com isso como? Com todos os "mas e se..."?

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O que eu posso fazer para a minha vida ficar bem, ou ficar melhor, apesar de tudo isso?

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Para onde eu iria, se pudesse escolher sair daqui? Sim, é o assunto recorrente na cabeça hoje. Itália? Dependendo de onde, não vale a pena. É muito bonito pensar em extensões de terra italianas, tradicionais, vida mais simples... Mas é isso mesmo o que se quer? enxada na mão e calos, preocupação com colher e plantar? É o tipo de preocupação que eu quero, ao invés do estresse com a nova chefe do trabalho? Faz diferença?

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Sinto que meu trabalho tem sido inútil. Sinto muito que minha nova chefe tenha um estilo de administração que tem me deixado muito triste.

filosofia de buteco

Privilégios da Escolha

08:05

Ontem assisti "Tempestade de Areia", na Netflix.

Para resumir, o filme mostra alguns dias na vida de uma família árabe. A filha mais velha indo para a faculdade (porque o pai autorizou), a mãe dela lidando com a segunda esposa do marido, as crianças mais novas. O enredo é bastante simples, o interessante são as camadas.

Esses filmes são sempre muito válidos para mim, porque me lembram dos meus privilégios.

No filme, não há opções, e se existem, são muito limitadas. Interessante mostrar que mesmo o homem da casa não tem lá muitas escolhas ("você sempre faz o que precisa, nunca o que quer") - não dentro daquela sociedade, naquele contexto, no que esperam dele como um homem de família naquela região. As mulheres ainda menos.

PRIVILÉGIOS.

Eu sempre observo meus problemas - ser mulher em uma sociedade machista, ser de humanas em uma universidade de exatas, não ser o estereótipo de mulher que agrada a sociedade, não crer em nenhuma das religiões majoritárias. Mas e o restante?

Vejo esses filmes e automaticamente me ponho a agradecer pela minha vida.

Por eu não ter nascido em um lugar onde a tradição é tão mais forte que os desejos pessoais. Por eu não ter nascido mulher em locais onde mulheres são objetos (há estupro, posse, venda de seres humanos, burca, falta de opção). Ainda mais simples: por eu não ter nascido em uma família machista, por eu não ter tido que trabalhar em nada degradante para ter minha liberdade financeira, por poder ter ESCOLHAS.

Eu sempre lembro do Alex Castro falando que existem dois tipos de pessoas: as que podem fazer escolhas e as que não podem.

O que eu mais posso NA VIDA é fazer escolhas. Eu passo grande parte do meu tempo paralisada exatamente por não conseguir fazer escolhas, por não querer largar um caminho em prol de outro. Mas até isso é uma escolha. Eu POSSO escolher, e as consequências da minha escolha são de minha total responsabilidade.

Eu escolhi pagar plano de saúde para não depender do SUS. Estou dando quase R$800/mês para uma instituição que quase não uso (graças aos céus eu quase não fico doente), para ter o privilégio de, SE PRECISAR, não depender da instituição pública de saúde.

Eu escolhi mudar do estado em que eu nasci, por achar a qualidade de vida lá aquém do esperado.

Eu escolhi me casar e manter um relacionamento estável, com todas as suas benesses, em detrimento da total liberdade de ação e do envolvimento com terceiros (porque esses são meus termos de compromisso, escolhidos por nós).

Eu escolhi fazer faculdade de Biblioteconomia e trabalhar com isso para prover meu sustento, em detrimento de todas as outras opções de ganha-pão que eu poderia ter.

Posso não ter uma penca de opções, decorrentes da minha posição na minha sociedade, onde moro, onde nasci. Posso reclamar que não tenho minhas ideias valorizadas no meu ambiente de trabalho, ou que nunca vou ser magrela numa sociedade que preza isso, que não sei ser bibelô. Mas ocasionalmente consigo sair da minha concha de egoísmo auto-impingido e ver que em grande parte da minha vida, eu tenho o PRIVILÉGIO da escolha. E a RESPONSABILIDADE de suas consequências.